Nos palcos da África do Sul

Esquece o musical do Rei Leão e todo o seu Hakuna Matata. O Pra Começar de ontem falou sobre a miscigenação na África do Sul e é claro que o teatro não poderia mostrar o contrário. Mas a história mostra que não foi tão simples chegar nesse estágio. Hoje a gente conta um pouco das lutas do teatro africano e as conquistas dessa arte que foi meio de afirmação cultural no país. Então, por favor, celulares no silencioso, que as cortinas irão se abrir em 3… 2… 1…

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Para os sul-africanos, o teatro remonta em muito a tradição oral das tribos nativas que habitavam a região. Essas tradições influenciaram principalmente o teatro tradicional africano, que em muito vai recontar essas histórias e usar elementos das culturas tribais, como as roupas super coloridas por exemplo. Com a colonização do país, entra em cena a tradição teatral europeia. O teatro europeu aos poucos passa a tomar conta das principais casas de show e teatros do país, reprimindo as manifestações de teatro tradicional, e tornando o teatro uma manifestação voltada para a população branca.

What doesn’t kill you makes you stronger

Se o preconceito em si já tornava o acesso das populações negras ao teatro difícil, o regime do Apartheid tentou sufocar as tentativas de vez. O papo eram peças populares no teatro europeu, sendo dirigidas, produzidas e interpretadas apenas por brancos para uma plateia de brancos. Os principais teatros estavam também localizados em áreas das cidades ocupadas apenas pela população branca, o que deixava às vizinhanças negras apenas espaços como igrejas ou centros comunitários como única alternativa.

Mas vamos combinar, nós brasileiros aprendemos com a ditadura militar que são nessas horas de recessão que nascem as grandes ideias. A África do Sul dos anos 1970 e 1980 viu nascer um grande movimento teatral em defesa da liberdade racial e de denúncia aos abusos cometidos com as populações negras. Temas como prisão sem julgamento, violência, direitos da mulher negra e o próprio racismo eram frequentes nos espetáculos.

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Cena da peça “Woza Albert!”, de 1981

Obviamente que nada disso podia ser encenado nos palcos oficiais do país. Além do teatro comunitário, surgiram em bairros como Sophiatown, em Johannesburgo, e District Six, na Cidade do Cabo, espaços de encontro da boemia sul-africana: músicos, escritores, dramaturgos, atores, artistas e pensadores dos movimentos de consciência negra. Um dos espaços mais emblemáticos para os artistas da época foi o teatro construido em 1913 no prédio do antigo Indian Fruit Market (Mercado de Frutas Indiano), em Johannesburgo. O Market Theatre apresentou em seu palco alguns dos espetáculos mais emblemáticos do teatro africano. Dá uma olhadinha no espaço do teatro hoje (sim, ele continua lá, firme e forte).

Fama internacional, baby

Alguns espetáculos ganharam também os palcos europeus e conquistaram prêmios internacionais. O primeiro grande sucesso foi o musical King Kong, de 1959, uma ópera jazz sobre a história do boxeador Ezekiel Dlamini, conhecido como King Kong. O musical era composto de um elenco formado completamente por atores negros. O sucesso foi tanto que ele foi também encenado no Prince’s Theatre de Londres, em 1961, com sucesso de crítica também por lá.

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Cartaz da ópera jazz “King Kong”

Mensagens subliminares: a música de King Kong “Sad times, bad times” faz referência ao Julgamento por Traição dos líderes do ANC (que levou Mandela à prisão) e ganhou parabéns do próprio Madiba, que esteve presente na noite de lançamento do espetáculo.

Outros dois espetáculos produzidos pelos também atores John Kani e Winston Ntshona foram Sizwe Banzi is Dead e The Island. Em Sizwe Banzi is Dead, um homem se vê afrontado por uma grande porém anti-ética oportunidade de conquistar uma espécie de carteira de trabalho/documento de identificação, que todo homem negro deveria obrigatoriamente carregar durante o período do Apartheid. Já em The Island, dois prisioneiros iniciam uma grande amizade durante sua estadia como presos políticos em uma prisão na Robben Island (mesmo lugar em que Mandela esteve preso), e vêem essa amizade ser testada no momento em que um ganha a chance de sair mais cedo do que o previsto. As duas peças foram indicadas às categorias de Melhor Peça no Tony Award de 1975, e Melhor Peça Estrangeira no Drama Desk Award do mesmo ano, e foram ganhadoras da categoria Melhor Ator principal, com as atuações de Kani e Ntshona, no Tony Award.

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Sizwe Banzi is Dead: Kani e Ntshona, em 1971

E agora?

Com o fim do apartheid algumas críticas surgiram ao teatro sul-africano. Muitos temas se perderam a partir do momento em que igualdade racial se tornou uma realidade. Mas isso também quer dizer uma abertura para temas mais universais de debate, claro, sem perder o olhar da cultura local que ganhou liberdade para se afirmar, e uma oportunidade ainda maior de se mostrar para o mundo.

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Espero que vocês tenham curtido o Pra Ver de hoje comendo muita rabanada (mentira, odeio canela, desejo muito peru e bacalhau na vida de vocês, isso sim). O Bagageiro deseja a todos os mochileiros, estejam vocês em casa preparando os quitutes pra curtir mais tarde com a família ou mochilando por aí e curtindo um pouco de neve, um Feliz Natal. Separem a tapioca e o café com leite (biscoitos com leite são para os fracos) que mais tarde vai ter uma visita muito especial arrombando entrando na casa de vocês pra trazer alegria em caixinhas embrulhadas, leia-se presentes.

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