O real (e surreal) Bang Bang Club

Como as Amandas abalaram as estruturas desse blog nas últimas duas semanas, eu e o Renan resolvemos mostrar que a gente também trabalha em equipe. Por isso, hoje vamos falar sobre um time de fotojornalistas polêmicos que marcaram a história da fotografia de conflito no nosso país da semana, e acabaram conhecidos como o Bang Bang Club. Eu acho que já deu tempo de você verem o filme, né? Eu particularmente não considero spoiler quando a história é real, porque isso é notícia (u.u), mas de qualquer forma fica um aviso: SPOILER ALERT!

Spoilers

Como vocês já conferiram no último Pra Ver, o Bang Bang Club foi um grupo formado pelos fotógrafos sul-africanos Ken Oosterbroek, Kevin Carter, Greg Marinovich e o português João Silva no começo da década de 1990 em Johannesburgo. O Club ficou mais famoso por registrar o cenário de violência do regime do Apartheid na África do Sul, partindo principalmente do ponto de vista das comunidades negras, o que era algo muito restrito ao acesso de fotógrafos também negros. Mas quem disse que isso os impediu?

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A aproximação corajosa dos rapazes era o que mais impressionava os profissionais da área, e influenciou milhares de fotojornalistas de conflito daquele momento em diante. Os membros do Bang Bang Club acompanhavam as ações de conflito de perto. Tão de perto que acabavam muitas vezes no meio de tiroteios e multidões em pânico. A situação era de risco, mas as fotografias acabavam de fato sendo impressionantes e muito sensíveis.

Apesar de ser conhecido como um clube, os membros faziam trabalhos fotográficos individuais e com estilos muito diferentes, e que valem ser conferidos.

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Greg Marinovich

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Greg Marinovich e o ator Ryan Phillipe que o interpretou no filme de 2010. Por favor, gente, nem consegui diferenciar quem é queCOF COF

Marinovich foi um dos autores, junto de João Silva, do livro The Bang Bang Club, que deu origem ao filme de 2010. Pra quem já assistiu, sabe que ele foi o último membro a integrar o grupo, abandonar a teleobjetiva e passar a acompanhar a ação de perto. O preço a pagar por toda essa ação é que ele e João são os únicos membros ainda vivos do Club. Greg foi indicado ao prêmio Pulitzer três vezes tá bom, pra você e levou um deles no ano de 1991, pela fotografia que registrava um homem que acreditavam ser um espião Inkhata sendo incendiado e agredido por membros da ANC.

(Clica nas fotinhos para ampliá-las.)

Pessoalmente, as fotografias do Greg Marinovich desse período histórico da África do Sul parecem ser sempre um registro de momentos impressionantes, o cara sabe realmente capturar o instante exato do ápice daquele acontecimento. Ou sabia. O fotógrafo declarou em entrevista ao The New York Times que os dias de combate acabaram depois de mais um acidente durante uma saída fotográfica marota ao Afeganistão, em que ele acabou ferido e teve que ter seus pontos feitos por um homem do vilarejo mais próximo que “decidiu que naquele momento ele seria um médico”, disse o fotógrafo. Agora ele sai por aí registrando flores e fazendo foto de casamenERROR. Além de fotojornalismo, o rapaz se tornou jurado de premiações de fotografia como a World Press Photo em 1994 e organizador do Prêmio Fujifilm em 2000. Hoje ele trabalha também produzindo documentários e escrevendo.

Ken Oosterbroek

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Um rapaz rebelde

Ken Oosterbroek era o membro mais popular do clube. Aos 26 anos, em 1989, ele ganhou seu primeiro prêmio Ilford Press de Fotógrafo do Ano, conquistando um segundo em 1994. Ao contrário dos companheiros que trabalhavam como freelancer, Ken trabalhava para um dos maiores jornais da África do Sul, o The Star, e acabou se tornando editor de fotografia de lá. Mas toda a experiência não impediu que uma tragédia acontecesse em 1994, quando as Forças de manutenção da paz (o exército das Nações Unidas) abriu fogo  contra membros do ANC e do IFP. Ken faleceu após ser atingido por tiros que, como foi descoberto em inquérito no ano seguinte, foram disparados pelos Capacetes Azuis. O presidente eleito dias depois na primeira eleição democrática do país, Nelson Mandela, fez uma declaração à imprensa pedindo que  Ken fosse a última vítima daqueles combates. Ken tinha apenas 31 anos quando faleceu.

 

João Silva

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João SIlva no set de filmagem de The Bang Bang Club, em 2010

João Silva era o único estrangeiro do grupo, nascido em Lisboa, Potugal. O fotógrafo é co-autor do livro que conta a história do grupo. João é conhecido como um dos maiores fotógrafos de guerra do mundo, principalmente pela coragem em se envolver em todo tipo de conflito, e talvez o membro mais apaixonado pela área. Por quê? Em entrevista ao The New York Times,  João Silva declarou que seu foco “tem sido estar nos limites da história”. Mas acho que eu disse antes que essa era uma profissão perigosa, né?

Conflito de fotógrafo: Durante o conflito entre as Forças de manutenção da paz e os rebeldes na África do Sul, em 1994 na cidade de Tokoza, tiros acertaram os fotógrafos Ken Oosterbroek e Greg Marinovich. Em meio ao socorro aos dois, João Silva tirou algumas fotos de Greg ferido e Ken (como eles depois descobririam) morrendo. Muitas críticas vieram e o próprio João declarou tempos depois ser eternamente arrependido de que uma das últimas coisas que fez por seu amigo Ken foi fotografá-lo em vez de ajudá-lo. Greg declarou em uma matéria que escreveu ao Daily Maverick que, na verdade “ele fotografou por menos do que 1% do tempo”, ao contrário do que muitos pensaram ao ver as fotos, e completou: “sem se importar com a própria segurança, ele me puxou para uma área coberta depois que eu fui baleado, e então correu para ajudar o Ken”.

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Greg Marinovich baleado ao lado do fotojornalista americano James Natchwey. Foto de João Silva

Em 2010 João Silva partiu para mais uma expedição fotográfica em meio aos conflitos no Afeganistão, acompanhando o exército americano. Tudo corria nada calmamente como sempre. Até que uma mina apareceu no caminho do fotógrafo. João Silva perdeu as duas pernas , até a altura dos joelhos, na explosão. Graças ao socorro rápido e eficiente, o fotógrafo sobreviveu e vive hoje com a utilização de próteses. Em homenagem ao amigo, Greg Marinovich escreveu o texto ao jornal Daily Maverick, com o título “Meu amigo, João Silva, o melhor fotógrafo de guerra do mundo”, declarando que para ele, João é “sem nenhuma dúvida, o melhor fotógrafo de guerra do mundo. Destemido, habilidoso, calmo sob stress e compassivo”, e acrescentando uma pequena curiosidade sobre o momento em que os médicos prestavam socorro ao amigo: “Enquanto os médicos trabalhavam duro nele, ele tirava fotos. Para mim, isso diz tudo sobre João.”.

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~Amigo é coisa pra se guardaaaar do lado esquerdo do peito~

Kevin Carter

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Kevin Carter talvez seja o mais conhecido dos fotógrafos do Bang Bang Club. Ele era o rapaz mais polêmico do grupo, mas, diziam os amigos, com um coração de ouro. A mãe de Carter contou a revista Times que o filho era inquieto e questionador desde muito jovem. Crescendo como um jovem branco, católico, nos subúrbios de Johannesburgo, ele questionava os pais frequentemente sobre o por que da aceitação do regime de segregação do Apartheid. Muitos anos depois, como fotógrafo Kevin ganhou reconhecimento mundial como ganhador do Pulitzer  em 1994 pela fotografia de uma criança sudanesa subnutrida tentando alcançar um centro de alimentação e sendo observada de perto por um abutre. Enquanto sua popularidade crescia, o questionamento ético também.

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Diga xisss!

Perguntas começaram a chover na redação do The New York Times, jornal em que a foto havia sido publicada, querendo saber o que havia acontecido com a criança. Carter sofreu críticas pesadas por não ter ajudado a criança. Por que apenas fotografá-la e não fazer mais nada por ela? A pergunta que atormenta fotógrafos do mundo todo há séculos se tornou um fardo muito grande a ser carregado pelo fotógrafo, que cometeu suicídio poucos meses depois de ser premiado. Sobre o tema, Marinovich declarou na mesma entrevista ao NYT que ” Esse é o problema: a vergonha. E foi isso que o Kevin sentiu. Ele ficou envergonhado. Algumas vezes nós falhamos com nossa própria bússola moral, nossa própria bússola emocional. Kevin era um cara extremamente caloroso, generoso e fantástico, e eu estou surpreso que ele não pegou a criança, apenas pra que ele mesmo se sentisse melhor.”(Pequeno detalhe: a criança sobreviveu, saiba mais aqui).

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Greg, o fotógrafo Gary Bernard e João carregam o caixão de Kevin

Fun or business

Bom, pra se dedicar a fotografar situações de alto riscos como essas os caras devem sentir muita adrelina, certo? Nem sempre. “Quando você está correndo em volta de pessoas que estão lançando granadas, essas são as partes divertidas” declarou João, mas com um porém “as partes difíceis são quando você na verdade tem que se forçar a fotografar, digamos, uma mãe carregando uma criança morta, ou um irmão chorando sobre o corpo do outro irmão – qualquer caso que possa ser. Naquele momento você sabe que está em apuros. Mas você se força além daquilo. É simplesmente importante  mostrar aqueles momentos, então você vai além daquela fase inicial e você fotografa aquilo, ainda que você se sinta como um abutre. Você sente que está se intrometendo além do que deveria, mas você faz. Você se força porque é importante. Casualidades com civis são importantes”.

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Apesar das tragédias e dificuldades, o Bang Bang Club continua sendo até hoje referência em fotografia de guerra e sobretudo na história da fotografia sul-africana. Além disso, os caras serão eternamente lembrados pela amizade dos quatro amigos, e por iniciar uma rede de solidariedade nessa categoria que se arrisca tanto para registrar os momentos históricos, os fotógrafos de guerra. Já entrando nesse ~espirito natalino de solidariedade~, eu deixo a reflexão do jornalista americano Bill Keller sobre qual era o verdadeiro sentido do Bang Bang Club:

Eu percebi que o Bang Bang Club não era na verdade um clube, mas de alguma forma, uma noção de que a parte do “club” na frase é mais importante que o “bang bang” – a intensidade das relações entre as pessoas que fazem isso.

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~Então bom Nataaaaal, e o Ano Novo tambééééém~

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