Fãs na Coreia: uma linha tênue entre amor e ódio

Quando eu comecei a me envolver nesse submundo de cultura coreana, aegyo, kpop e tudo mais, uma das coisas que mais me intrigou (e intriga até hoje) é a relação entre fãs e artistas na Coreia. Peculiar não seria uma palavra boa o suficiente pra explicar como essas coisas funcionam por lá. Acha estranho quem faz cosplay dos mangás preferidos? Pensa que uma pessoa que gasta fortunas no sabre de luz mais da hora está completamente insano? Então prepare-se porque a coisa vai começar a ficar realmente séria. Para o bem ou para o mal, o nível de devoção de fãs e anti-fãs (os haters coreanos) é ninja, e eu vou te mostrar por quê.

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Terrorismo pop

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A história que eu vou contar a seguir aconteceu com um dos (senão o) coreanos que eu mais admiro, o Lee Seon Woong, ou Daniel Armand Lee, ou Tablo, como ele é mais conhecido (esse no gif aí em cima). O Tablo é um rapper e líder do grupo coreano de hip hop Epik High, um dos grupos mais famosos e responsáveis por popularizar esse ritmo na Coreia. O cara não brinca em serviço, além de muito talentoso como rapper, casado com uma grande atriz do cinema coreano (a linda Kang Hye Jung, que atuou em Oldboy), ele lançou em 2008 o livro de contos Pieces of You (em coreano e inglês) que virou best seller na Coreia, algo de se esperar de um cara que se graduou em Escrita Criativa em Stanford em apenas seis meses (pequeno detalhe: a duração normal do curso é de três anos). Bom, esse último fato na verdade foi motivo de dor de cabeça pro Tablo.

O fato é que desde 2007 a Coreia começou a ser agitada por uma investigação de veracidade dos diplomas de muita gente importante, depois que descobriram que o diploma da curadora de um grande museu de arte moderna de Seul era falso. Foi uma corrida louca de promotores tentando desvendar outros casos e pessoas influentes tratando logo de comprovar os seus. Anos depois, em 2010, o Tablo entrou no meio das acusações. Um grupo intitulado TaJinYo (uma versão encurtada em coreano da frase “Nós pedimos a verdade ao Tablo”) começou a questionar a autenticidade do diploma do rapper. Um fato que inicialmente recebeu atenção de poucos (e praticamente nenhuma do próprio acusado) ganhou proporções imensas quando os anti-fãs do rapper passaram a envolver inclusive a família dele. Para Tablo, nem a filha recém-nascida parecia estar segura na confusão. “Eu não sabia se o médico, que estava injetando agulhas no meu bebê, era uma dessas pessoas. Foi aterrorizante”, declarou Tablo em uma entrevista à revista da universidade de Stanford, em 2011. As comprovações do rapper, que envolviam a apresentação do próprio diploma, os depoimentos de professores e até a ida à universidade junto de uma equipe de televisão, não pareciam suficientes para comprovar a sua inocência, e o site oficial do TaJinYo chegou a reunir cerca de 200 mil anti-fãs. As compras de CD caíram, as músicas do Epik High não tocavam mais nas rádios e eles não faziam aparições na TV, e para completar, ameaças de morte começaram a aparecer. O stress foi tanto que o pai de Tablo, que já estava doente na época, teve a doença agravada e faleceu em 2011, fato que a família atribui completamente à ação dos anti-fãs.

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Por incrível que pareça, essa é uma realidade vivida por muitos artistas no país. E aí vocês dirão “Mas no ocidente nós também temos haters”. A grande diferença entre os anti-fãs asiáticos e os haters ocidentais é a proporção das ações. Enquanto haters costumam se manifestar xingando muito no Twitter, anti-fãs tomam atitudes mais organizadas e geralmente mais perigosas, chegando muitas vezes ao ataque físico. Foi o que aconteceu em 2006 com Yunho, o líder do grupo Kpop DBSK. O cantor foi envenenado  por um anti-fã que pôs cola no seu suquinho (sim, no suquinho, vejam o nível de maldade). Já o cantor/ator/bailarino/malabarista chinês Hankyung sofreu bastante enquanto ainda era membro do grupo Super Junior, recebendo até como presentinho de um anti-fã uma caixa repleta de sacos de sangue, uma faca e uma foto (esfaqueada) dele mesmo. As agências geralmente tentam contornar a situação aumentando a segurança dos artistas, o que, infelizmente, acaba reduzindo ainda mais a liberdade deles e o acesso das fãs.

Bom, o inferno do Tablo acabou de fato em outubro de 2012, quando 8 membros do TaJinYo foram presos. Com o talento que tem, o Epik High respondeu à fase com o comeback (o retorno aos palcos) no mesmo ano, com a música Don’t Hate Me. Adivinha só? Foi sucesso total .

É amor até demais

sasaeng

Sasaeng alert!

Ok, sofrer por causa de gente que te odeia até faz mais sentido. Mas amor demais também causa sofrimento curtiram a frase de biscoitinho da sorte?, e as sasaengs estão aí para provar isso. Sasaeng significa literalmente vida privada. Dentre os que curtem cultura coreana, assim são chamadas as “fãs” (há controvérsias em considerá-las fãs) obssessivas dos artistas coreanos, especialmente no universo do Kpop. O papo para essas sasaengs é chegar o mais perto possível dos ídolos ou qualquer coisa que esteja relacionada à eles, desde objetos à família dos artistas. E aí, meu bem, vale tudo.

Sasaengs geralmente gastam fortunas nessas atividades de stalkear geral. Existem serviços específicos de “táxi sasaeng”, por exemplo, em que as fãs contratam os táxis para perseguir os veículos dos ídolos. Os taxistas cobram caro e descumprem qualquer lei para conseguir chegar mais perto, o que, claro, já resultou em muitos acidentes envolvendo inocentes. Elas também invadem dormitórios e casas das famílias dos artistas para tentar surpreendê-los. O grupo de Kpop EXO (o Renan já mostrou eles por aqui) já sofreu bastante com isso na sua breve carreira, que começou em 2012. Quando um dos doze membros precisa ir ao banheiro, outros precisam acompanhá-lo para evitar que as fãs invadam o local e surpreendam o pobre. Luhan, um dos membros chineses do grupo, já foi empurrado diversas vezes no aeroporto. No último mês de setembro, os membros do EXO compareceram ao casamento do irmão de um dos integrantes, Baekhyun, e foram surpreendidos por uma legião de sasaengs armadas de câmeras, que empurraram convidados e subiram em cadeiras, mesmo com os pedidos dos integrantes para que parassem. A revolta foi geral, especialmente entre os membros, mas as sasaengs não gostaram de ver os meninos falando demais. Uma delas deixou uma mensagem maligna carinhosa para Baekhyun dizendo que “tente nos tratar mais uma vez como insetos, nós realmente não sabemos o que faremos da próxima vez”. Oi?

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Membros do Exo fazendo murinho para impedir surpresas

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Os artistas, claro, vivem aterrorizados com a situação, e as reações às vezes são polêmicas. O grupo Shinee teve membros atacados por sasaengs no aeroporto e o empresário reagiu com violência com a menina que realizou os ataques. No caso do grupo JYJ, os próprios membros foram acusados de agredir as fãs. Diferente do caso dos anti-fãs, as agências não tomam medidas tão contundentes contra as sasaengs (que coincidentemente são pessoas que compram muitos produtos desses artistas) e isso parece agravar a situação. Numa tentativa de garantir alguma segurança aos artistas foi adicionada uma cláusula ao Ato de Pequenos Delitos da Coreia, voltada especialmente para defender artistas das stalkers, e ainda foi criado um centro de apoio para auxiliar jovens artistas e empresários a lidar com os traumas ligados à essas situações.

É claro que a Coreia não é uma terra de loucos e a forma como os fãs mentalmente saudáveis manifestam sua admiração já virou moda em muitos lugares. Por lá, as pessoas se reúnem em fandoms ou fã-clubes com nomes específicos (Super Junior tem as ELF, Big Bang as V.I.P., SNSD as Sone, 2ne1 as BlackJack e por aí vai), e a unidade é a marca nos shows. Como muitos grupos também tem cores específicas, os mares de lightsticks (as barrinhas fluorescentes) balançando no mesmo ritmo dão um dos efeitos visuais mais legais do planeta, que inclusive a gente já começou a ver pelo ocidente em shows de bandas como o Coldplay (quem assistiu a tour de Mylo Xyloto viu que as pulseirinhas coloridas do público foram ponto alto).

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Não desgruda daqui que ainda tem bastante novidade pra mostrar na nossa última semana da Coreia, e ainda vem muita coisa bacana por aí.

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