Sobre premiações, polêmicas e canadenses de coração ou nascimento

Depois de duas semanas batendo altos papos sobre o Canadá, já deu pra perceber que tem muitas coisas ainda a serem descobertas sobre o país. Na música, no cinema, e na literatura também, têm um monte de talentos que você conhece mas não sabia que eram filhos e filhas (mesmo que de coração) do gigante gentil. Como aqui n’O Bagageiro a gente não curte mal entendidos, trazemos mais uma lista de canadenses para serem amados, agora na literatura. Uma homenagem mais do que especial para o país que viveu um momento super honroso na área há apenas alguns meses. Já sabe o que foi? Não? Então, sigam-me os bons!

follow-me-gif

 William Gibson

william-gibson

“Eu tenho um endereço de email, sim, mas, não, eu não vou dá-lo a vocês. Eu sou um e vocês são muitos, e mesmo se vocês forem, digamos, vinte e sete num grande total global, isso ainda é muito. Porque eu preciso ter uma vida, e desperdiçar tempo e escrever.” diz um amável William Gibson em seu site oficial

William Gibson é provavelmente o escritor de ficção científica mais aclamado do século passado, com obras marcadas pelos estilos cyberpunk e steampunk de literatura. O Canadá foi um país adotado pelo escritor nascido nos Estados Unidos, após tornar-se completamente órfão aos dezoito anos e decidir fugir do recrutamento para a Guerra do Vietnã, para qual acabou nem sendo convocado. Gibson afirma ter sido o esteriótipo de uma criança fã de ficção científica: era introvertido e vivia mergulhado nos livros. Perdeu o pai aos seis anos e a mãe aos dezoito. Antes disso, entretanto, enquanto estudava num colégio interno no Arizona, o garoto William, aos quinze anos, começou a entrar em contato com a literatura Beat e a contracultura, que marcariam seu estilo literário para sempre. Anos depois, já morando no Canadá e tendo visto a poeira baixar nos movimentos de paz e amor dos anos 1960, Gibson viu seu grande estímulo no movimento musical que surgia no Reino Unido e nos Estados Unidos nos anos 1970, que ele mesmo considerou “a detonação de um prójetil de ação lenta, enterrado profundamente no flanco da sociedade na década anterior”: o Punk. Punk, contracultura e ficção científica foram o açúcar, tempero e tudo que há de bom para criar as obras que se seguiriam.

(Você pode acessar o site oficial de Gibson aqui)

Pra você ter uma pequena ideia da importância de William Gibson no cenário cultural atual: o termo “ciberespaço” que é usado muito comumente para falar de internet, jogos e afins, foi criado pelo autor no conto Burning Chrome, de 1982. Agora pense comigo: a internet, digo a rede original de computadores criada pelos militares americanos, surgiu na década de 1970. No começo da década de 1980 a internet estava sendo apresentada ao mundo por um grupo ainda muito seleto de pessoas que estavam descobrindo/criando formas de interagir naquele meio. Foi nesse tempo embrionário da internet que Gibson construiu um universo nas suas obras que fundia as ideias de real e virtual, descrevia de uma forma imagética a era da informação que só começaria anos depois. Suas principais obras, a trilogia Sprawl (cujo primeiro livro é Neuromancer, a obra pela qual é mais conhecido até hoje) e a trilogia Bridge, tornaram Gibson conhecido como visionário ou até profeta, esse último, termo que ele completamente repudia. Gibson não é um cara tão ligado assim às tecnologias atuais, ele diz que tem o básico, com um pequeno porém, um segredo que ele mesmo diz, talvez seja a sua grande diferença:

Eu suspeito que eu gastei exatamente o mesmo tempo escrevendo quanto a pessoa comum da minha idade gastou assistindo à televisão, e isso, como um todo, talvez seja o real segredo aqui.”

simpsons tv

Diz aí, Homer. Concorda?

Yann Martel

yann-martel-0012

Você provavelmente conhece a maior obra escrita por Martel. Ele é o autor de Life of Pi. Sim, o livro que virou o filme de Ang Lee (vencedor do Oscar de Melhor Diretor desse ano) indicado ao Oscar em 2013 é de um autor canadense. Yann Martel nasceu em Salamanca, na Espanha, filho de pais canadenses. Seu pai era diplomata e por isso Yann passou a infância morando em vários países até se estabelecer no Canadá. Na vida adulta ele continuou as viagens, uma delas, uma longa jornada pela Índia (começou a ver as referências?). Life of Pi foi o quarto livro do autor que fala francês mas prefere escrever inglês, lançado em 2001. O livro foi premiado com o Man Booker Prize e sucesso total de crítica. A história, para quem ainda não sabe, foca na relação estabelecida pelo menino indiano Piscine Molitor Patel, ou Pi, e Richard Parker durante a viagem pelo Oceano Pacífico em um bote, depois que o navio em que seguiam para o Canadá naufraga, e apenas os dois sobrevivem. Ah, pequeno detalhe: Richard Parker é um tigre. Pois é, Pi até se dá bem com animais, mas vamos combinar que viver num bote com um tigre não é muito seguro, e a motivação do menino durante a história é sobreviver (junto com Richard Parker) até que consigam se salvar.

richard_parker

piscine

Beleza, a história é linda,  o filme ficou lindo, todos choraram, mas aí vem a polêmica. Pam-pam-PAAAAMM. Acontece que Yann admitiu que se inspirou em uma outra obra para escrever Life of Pi. Foi o livro Max e os Felinos do autor brasileiro (RÁ!) Moacyr Scliar. O livro de Scliar foi publicado em 1981 e traduzido para a língua inglesa em 1990, e adivinha qual é uma das principais histórias do livro? Max, um menino judeu alemão resolve fugir da Berlim nazista de navio para o Brasil. O navio naufraga e Max acaba em um bote com um jaguar que também estava no navio. Ok, até J. K. Rowling foi acusada de plagiar Neil Gaiman, isso nem sempre quer dizer alguma coisa. E claro, não quer dizer que Yann tenha plagiado Moacyr Scliar também.

Mas a postura de Martel realmente não ajudou. Após ser questionado sobre como essa “inspiração” aconteceu, o autor declarou que tinha lido uma crítica feita por John Updike para o The New York Times. Updike entrou logo em ação dizendo que não havia escrito crítica alguma. Yann admitiu ter achado a ideia brilhante, mas afirmou que não tinha o menor interesse em se envolver com Max e os Felinos em um primeiro momento. Por quê? Bom, “Por que se envolver com uma premissa brilhante arruinada por um autor menor?” declarou Martel. É, Yann Martel, errou feio, errou rude. O escritor Moacyr Scliar, ainda vivo na época da polêmica (ele infelizmente faleceu em fevereiro de 2011), deu algumas declarações sobre o acontecido, uma delas você confere aí embaixo. A poeira baixou e Life of Pi ganhou até adaptação para o cinema, mas o escândalo ficou marcado na carreira de Martel.

Congrats, Canada!

munro1_2698127b

Com toda essa fofura, não tinha pra ninguém. Go, Alice!

Então, faltou a super notícia bombástica muito legal sobre o Canadá, certo? Aí vai: no último mês de agosto a autora canadense Alice Munro foi declarada vencedora do Nobel de Literatura deste ano. Clap, clap, clap! Alice é a 13ª mulher a ganhar um Nobel de Literatura, a primeira vencedora de fato nascida e criada no Canadá (uhuu!) e a primeira escritora de contos a receber o prêmio em 112 anos. Não é fraca, não, vamos combinar. Ela declarou que  considerava ganhar o Nobel “um sonho impossível”. Alice é conhecida por ser uma das maiores contistas da atualidade. Seus textos fogem dos padrões de um conto tradicional e ela geralmente utiliza outros elementos como recortes de jornal em meio ao texto. O comitê de premiação destacou que a obra da autora é marcada “por sua narrativa afinada, que é caracterizada pela clareza e pelo realismo psicológico”. Infelizmente, Alice, uma senhora de 82 anos, está com a saúde debilitada demais para atravessar o Atlântico e receber o prêmio pessoalmente na Suécia. Mas não fica triste não, Alice, todos já estão muito orgulhosos! Aproveitando o embalo, três livros da autora serão lançados no Brasil, traduzidos para o português (YEY!) em 2014. Confere só o trecho do livro da Alice em português (YEY de novo!) que a Veja disponibilizou online.

Sim, é isso, pessoal, digam bye bye/au revoir pro Canadá por enquanto porque amanhã a gente já vai ter aparatado em outro lugar do planeta. E acreditem, vai ter MUITA coisa legal aqui. E eu estou MUITO ansiosa desde já… E aí? Já sabem o que vai ser? Sim? Não? Façam suas apostas (comentando aqui no post da promoção de mêsversário) porque vai ser LEGENDARY!

b1a4

Anúncios

Qual tua opinião?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s